QUADRADÃO


Já que hoje Teresa e eu resolvemos focar conteúdo do blog em design, segue dica para o trabalho do pessoal do Quadradão (meio geométrico também, do jeito que o gravata aqui gosta). Leandro Lopes, um dos integrantes do coletivo, inclusive já deu entrevista para mim, na época em que estava divulgando seu trabalho para o pessoal do AHH! Se tiverem interesse em saber um pouco mais sobre o conceito de trabalho dessa galera paulistana gente fina, o bate-papo segue abaixo.

Vale o confere!

UM CAMINHAR PRÓPRIO

São 18h30. O AHH! chega um pouco antes do horário combinado no escritório de design Quadradão, na rua Frei Caneca.

Leandro Lopes ainda está com as mãos sujas de um cartaz que acabou de pintar. Parece que está meio corrido, organizando a mesa e selecionando alguns trabalhos para me mostrar. Eu chamo – Ops! Ele me olha e diz:

– Nossa, se você tivesse chegado um pouco antes, não me pegaria aqui.

– Tá correndo? pergunto.

– Fui inscrever um trabalho nosso num concurso, por pouco não consigo chegar.

Entro, sento e nosso papo começa. Falo para ele da proposta de nossa entrevista: sobre o trabalho do Quadrado e da ponte entre design e a arquitetura vista não como forma, mas enquanto método.

O Quadradão existe desde 2008. Leandro mais as duas sócias, Aline Coutinho e Andrea Ribeiro, dão duro para fazer virar o negócio e para cumprir com aquilo que lhes dá prazer: um design crítico, gerador de reflexões e na tentativa de ser universal.

Ligo o gravador e a entrevista para o AHH! começa.

AHH! – O Quadradão tem essa proposta de intersecção entre design e arquitetura. Comece falando sobre isso então.

Leandro Lopes – Acho que existe essa intersecção mesmo porque é difícil diferenciá-las. Elas estão muito próximas. Na etimologia da palavra, design é projeto, é desígnio, é desejo. O projeto nada mais é que do a via para se chegar a algo que se deseja. E mesmo os primeiros designers foram arquitetos, então esse encontro entre as áreas vem de tempos.

A diferença entre arquitetura e design está basicamente na escala. No design, nós trabalhamos com milímetros e na arquitetura se trabalha com metros, centímetros, mas o raciocínio projetual é o mesmo. O pensamento e o tratamento que usamos é o mesmo que para se projetar uma casa, uma cadeira ou um cartaz.

Então a aproximação com a arquitetura se dá pela forma de pensar e pelas nossas influências, já que a nossa formação é de arquiteto, mas também porque esse planejamento te permite prever o que vai acontecer com o objeto, fato que é o mais importante.

AHH! – Falemos um pouco sobre um trabalho seu. Há, por exemplo, o cartaz vencedor da 22ª edição do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira. Ele diz muita coisa sobre como vocês pensam design, não é?  

Leandro Lopes – A ideia é aproximar as pessoas da essência do objeto. As pessoas usam o objeto e ele acaba de designando apenas pela sua funcionalidade, mas não pelo o que ele é em sim. Essa lógica acaba na verdade distanciando as pessoas do objeto, pois você apenas o utiliza, mas não reflete sobre o que tem na mão e como aquilo realmente funciona.

Então, nesse caso, a tentativa é justamente essa: a do caminho inverso. Essa cartaz é o desenho de uma escova, mas a questão é: o que é uma escova? Ela é nada mais que uma barra horizontal com cerdas perpendiculares. Veja que nós não tentamos ilustrar uma escova perfeita, pois ela não é assim. Mas isso são detalhes que pra gente não importa. O importante mesmo é mostrar a proporção, o formato do objeto.  

AHH! – Você diz que o trabalho de vocês não deixa de se enquadrar também em uma crítica ao design brasileiro. Por que isso?

Leandro Lopes –  Acho que o design aqui no Brasil é um pouco precário, no sentido de que não se dá muita importância. O design aqui é muito mais linkado com a publicidade e trata-se mais de dar uma cara bonita para o objeto, do que pensar ele estruturalmente e de forma social. Acredito que esse desvirtuamento marca muito o design feito no Brasil, tanto nos pequenos, e principalmente nos grandes projetos.

Por exemplo, se você olha para o logo das Olimpíadas do Rio de Janeiro, você vê que ele tende muito mais para a publicidade do que para o design. A forma, na verdade, é de uma ilustração do Pão-de-Açucar, mas desde quando o Pão-de-Açucar são aquelas curvas? Aquilo fala pouco sobre o objeto que ele visa retratar. Ou seja, a pessoa, num primeiro contato, reconhece o objeto, mas ele não proporciona uma profundidade em termos de reflexão sobre o que é o Pão-de-Açucar, o Rio de Janeiro e o Brasil. Você tem aquelas pessoas de mãos dadas, mas o que elas significam? Que somos um povo de diferentes raças, mas unido? Vejam que é um conceito muito mais publicitário do que de design. Repare nas aplicações desse logo, pois elas dizem muito sobre a marca e aí você vê que, na verdade, a dificuldade de se aplicá-la é gigantesca. Isso tudo porque o processo foi atropela e porque o Comitê Olímpico deixou claro que eles queriam uma marca que tivesse pessoas de mãos dadas, mas enfim… isso é um outro detalhe da coisa.

Outra questão: o logo é uma marca que vai falar de samba, mulheres, carnaval e é engraçado como as pessoas não conseguem associar, por exemplo, uma forma geométrica com o Brasil. Veja a contradição, pois o pensamento é que o geometrismo e o traçado duro não são brasileiros, pois nós temos muito mais a ver com o malemolente, com curvas e com o traçado à mão, mas daí, na construção daquela marca, usou-se o computador para reproduzir um traçado à mão. Então veja a contradição nisso, porque o computador é uma máquina cuja lógica é totalmente diferente da do homem e que por mais que tente não consegue reproduzir a leveza do traçado e o sentir da leveza do traçado humano.

E ainda sobre essa questão de o que realmente nos significa, fala-se muito sobre o design associado ao samba, ao Brasil e o que realmente nos representa, e por isso a opção pela curvas. Mas se você analisar o samba, verá que o se tem ali é uma batida marcada, entende? É matemática, é geométrico, é duro e mesmo assim é brasileiro. Então na verdade o que se tem é aquilo que falei: as pessoas não olham para o objeto, e o seu design acaba sendo marcado por aquilo que o rodeia, pela sua função.

Isso é extremamente eficaz em termos de publicidade, mas acaba minando o potencial de reflexão que o design pode proporcionar.

AHH! – Então você não está preocupado com o seu design ser ou não brasileiro?

Leandro Lopes –  A questão é: se eu pensar para mim um design estritamente brasileiro, o que isso vai me trazer? Eu estou mais interessado num design universal, que fale para todos da mesma forma. Nós buscamos sempre uma forma de poder socializar mais a coisa. Então se eu penso num vermelho, eu penso no que ele significa para o homem e não para cada cultura. Estou pensando no que ele significa enquanto emissão de luz e o que isso provoca na pessoa. É claro que cada cultura vai condicionar isso, mas independente desse condicionamento, a coisa que têm seu próprio caminhar. O vermelho tem seu próprio caminhar em todos os países, independente da cultura.

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